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O embarcador reduz o prazo de entrega.
O caminhoneiro tem que cumpri-lo ou perde o frete.
O rebite é o meio mais fácil para executar uma missão perigosa.
Texto: Francisco Reis
Nesse círculo vicioso, os caminhoneiros estão trabalhando cada vez mais horas sem parar e, para agüentar, continuam recorrendo a estimulantes, os famosos rebites, remédios que contém anfetaminas e têm determinados fins que, entre seus efeitos colaterais, tiram o sono. Com isso, as tragédias nas estradas aumentam a cada dia.
Como exemplo, o local onde ocorre o maior número de acidentes na rodovia Carvalho Pinto, que liga São Paulo a Taubaté, no interior paulista, é uma longa reta da estrada. Muitos motoristas que sofreram acidentes no local alegam terem sido fechados por um carro.
Nos Estados Unidos, muitos caminhoneiros que sofreram acidentes em circunstâncias semelhantes, afirmaram ter visto um cachorro preto cruzando a estrada e, ao tentar desviar, acabaram se acidentando. Existe até um filme sobre o assunto, chamado Black Dog (cachorro preto), interpretado por Patrick Swaze, o mesmo ator do filme Ghost, no qual ele sofre um acidente devido ao black dog.
Tanto lá como aqui, nunca se encontrou o tal cachorro preto nem o suposto veículo que teriam provocado os acidentes. Segundo os policiais, o que acontece é que o motorista fica dirigindo por muitas horas e de repente adormece ao volante.
Alguns motoristas para não correrem este risco, apelam para o rebite. Porém, ao acabar o efeito, o sono o derruba literalmente e quase sempre acontece um acidente.
O seu uso é antigo
As anfetaminas formam um grupo de drogas estimulantes utilizadas pela primeira vez na década de 30 e foi muito usada durante a II Guerra Mundial pelos soldados norte-americanos por terem fama de serem estimulantes e revigorantes. Na década de 70, as anfetaminas passaram a ser consideradas drogas psicotrópicas (medicamento que age sobre o psiquismo, como calmante ou como estimulante, ou que provoca perturbações psíquicas) e iniciou-se o controle de sua comercialização, com a exigência de receita médica para sua venda. Atualmente, o Ministério da Defesa do Reino Unido está fazendo grandes compras de um remédio que permite as pessoas ficarem acordadas e alertas por períodos de 40 horas.
E é esse poder que os motoristas procuram. “Carrego melão em Mossoró (RN), a 3.000 km de São Paulo e tenho que estar no Ceasa na manhã do dia seguinte, em 36 horas”, diz João Antonio de Freitas*, caminhoneiro autônomo há 15 anos, que admite sempre ter tomado rebite. “Venho direto, só paro para urinar e abastecer”.
Assim como ele, muitos outros recorrem ao rebite. “Não tem como não tomar o rebite”, diz resignado Osvaldo Almeida*, motorista há 25 anos, que toma o estimulante há 15 anos, desde que começou a viajar. “Saio de Petrolina (PE), a 2.200 km de São Paulo e tenho que descarregar 24 horas depois em São Paulo. Se parar para dormir não dá para fazer o horário”.
Ao serem perguntados sobre a colocação de um segundo motorista, ambos concordaram. “Não adianta porque a gente não confia no outro e não dorme”, disse Freitas. “Além disso, com o caminhão rodando você não consegue dormir”, completa Almeida.
Os caminhoneiros explicam que se recusarem cumprir o horário do frete, outro pega. “Tenho a prestação do caminhão para pagar, preciso trabalhar”, diz Almeida. “Sei que é arriscado, mas com mulher e filho para cuidar não posso rejeitar frete. Tomo rebite e rezo para que Deus me ajude”, confessa Freitas.
O outro lado da moeda
Enquanto o exército do Reino Unido compra anfetamina para seus soldados, a Força Aérea Brasileira (FAB) é contra até ao guaraná em pó. “Não recomendamos nem rebite ou estimulantes como guaraná em pó, porque sabemos que a pessoa vai ficar com a falsa sensação de estar descansada, mas vai apresentar falhas”, afirmou a primeira-tenente Tiana Gusmão, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. Segundo ela, “isto é notado com freqüência em investigações de acidentes, tanto civis como militares. De todos os acidentes aéreos, 80% são causados por falha humana. E, desses 80%, 21% estão relacionados à fadiga e à sobrecarga de trabalho”. Por isso, diz a primeira-tenente, as missões das tripulações da FAB têm duração máxima de 12 horas.
As anfetaminas são drogas estimulantes da atividade do sistema nervoso central, agindo diretamente na ligação entre os neurônios através do aumento da produção e da liberação de substâncias chamadas de neurotransmissores. Entre 20 a 60 minutos após a ingestão da droga, o usuário fica sem sono, perde o apetite, tem o raciocínio acelerado e fica com a capacidade de prestar atenção aumentada. Isto faz com que ele se sinta cheio de energia e capaz de realizar determinadas tarefas por mais tempo.
“O problema é que isto pode levar o organismo a se esforçar acima de sua capacidade e, à medida que a quantidade de anfetamina no sangue circulante diminui, há o risco de a pessoa dormir subitamente, pois o cansaço e o sono reaparecem de forma mais acentuada”, alerta o médico Eduardo Simon, com oito anos de experiência e especializado em psiquiatria clínica e terapia familiares.
Outro problema para quem toma o rebite é que, assim como a perda do sono, o mesmo remédio provoca outros efeitos. Entre eles, a irritabilidade, comportamento agressivo, tremor, dilatação das pupilas, inquietação, náuseas ou vômitos são os mais comuns.
Piores do que esses efeitos, as anfetaminas podem ainda levar a um aumento da pressão sangüínea e dos batimentos cardíacos, o que pode desencadear patologias sérias como o derrame ou o ataque cardíaco.
Alguns desses efeitos foram sentidos por caminhoneiros que admitiram tomar rebite sempre que viajam. “Eu tenho um pouco de tremedeira e urino mais que o normal”, disse Roberval Afonso Silva*, 35 anos, e 15 de profissão. “Mas não tem jeito, se chego atrasado o dono da carga desconta no frete”.
Em uma roda de caminhoneiros, outros efeitos são lembrados. “Um amigo meu tomou rebite e no meio da viagem começou a achar que o caminhão estava tombando, quando na realidade não estava”, conta rindo Rui dos Anjos Aparecido*, 25 anos e cinco de estrada. “Ele foi tombando na cabine acompanhando o capotamento imaginário do caminhão até ser encontrado deitado no banco e o caminhão encostado em um barranco”.
O que para os amigos foi motivo de piada, poderia ter sido trágico. “Por serem psicotrópicos estimulantes, os rebites podem causar a exteriorização de impulsos agressivos e incapacitar a percepção e avaliação adequada da realidade”, explica o médico Eduardo Simon. O motorista pode achar que a curva é mais aberta do que realmente é e acabar saindo da estrada, por exemplo.
Um outro caminhoneiro entrevistado afirmou que tomava rebite e não sentia efeito colateral nenhum. Perguntado mais uma vez, disse com simplicidade: “às vezes eu escuto umas vozes. As vozes dizem assim: eu to cansado, dirige você. Agora é sua vez, to cansado”, confessa rindo Epaminondas Soares*, 43 anos e 18 de estrada. O doutor Simon tem a explicação para essas vozes. “Em alguns casos de uso do rebite, podem surgir alucinações visuais e auditivas e idéias deliróides, sintomas denominados de psicose anfetamínica", afirma Simon.
Na bula do remédio mais tomado pelos caminhoneiros como estimulante está escrito que ele é contra indicado para quem tenha distúrbios cardiovasculares, hipertensão moderada, glaucoma e distúrbios psiquiátricos. Alguns dos efeitos colaterais que constam na mesma bula são: tremor, fraqueza, irritabilidade, insônia, tensão, reflexos hiperativos, confusão mental, ansiedade e dor de cabeça.
A revista Caminhoneiro fez uma pesquisa com 100 caminhoneiros sendo que 30 foram ouvidos no Ceasa, centro de abastecimento de alimentos de São Paulo, e 70 durante a 15a. Festa do Caminhoneiro.
Apesar de o número ser pequeno, foi possível constatar alguns dados interessantes. Todos os que admitiram tomar rebite o fazem para cumprir horário. Os efeitos admitidos vão de tremedeira e delírios, até redução temporária do órgão genital masculino e diarréia. A diarréia é explicada porque o rebite tem em sua composição derivados de magnésio e óleo de risino.
Como o rebite é usado para que os motoristas cumpram o horário, se os embarcadores dessem horários mais flexíveis, com mais tempo para que as cargas fossem entregues, os caminhoneiros não teriam que recorrer ao rebite, pois poderiam parar para descansar.
Limitar a carga de trabalho em 12 horas, como a Força Aérea Brasileira, seria uma saída, porém, de difícil execução e controle, pois não haveria como controlar a carga de trabalho.
José Natan, presidente da União Brasileira dos Caminhoneiros e Afins traça um quadro mais sombrio para acabar com o problema dos motoristas dirigindo a base de rebite. “Em primeiro lugar, seria necessário submetê-los a um tratamento, pois eles são dependentes químicos, viciados”, afirma Natan. “Tem motorista que toma calmante para dormir, de tanto que ingeriu rebite”. Segundo ele, do uso de rebite para drogas mais pesadas é um pulo.
A idéia de se determinar o máximo de 12 horas de trabalho não é vista com bons olhos por Natan. “Se limitassem à jornada de trabalho, seria necessário construir vários pontos de apoio nas estradas para que os motoristas pudessem passar a noite em um lugar com total segurança. Às vezes o caminhoneiro não pára para dormir por falta de lugar seguro”.
Quem ganha e quem perde
Como em todo vício, quem ganha com o consumo são os traficantes. Neste caso, representados por maus farmacêuticos, maus frentistas e maus donos de bares que vendem o remédio sem receita, mas com um lucro fabuloso.
Para se ter uma idéia, a caixa do remédio mais usado como rebite, com 20 comprimidos (duas cartelas de 10), custa na farmácia, R$ 7,91. Os caminhoneiros pagam R$ 10,00 e até R$ 15,00 por cartela. Há casos onde o comprimido é vendido por unidade ao preço de R$ 1,50 cada. Nesse caso, o vendedor obtém um lucro de 379%.
“Nas grandes farmácias é impossível comprar um remédio desse sem receita”, garante Enrico Pederoda, farmacêutico de uma grande rede de farmácias. “A vigilância sanitária tem uma rígida fiscalização com todos os remédios controlados e as farmácias são obrigadas a fazer um relatório a cada três meses e encaminhar para a fiscalização”.
A Vigilância Sanitária tem exercido rígido controle dos remédios, o problema é a pulverização dos pontos onde o rebite é vendido. “Posto de gasolina não pode vender remédio”, afirma Elizeu Diniz, diretor de Divisão da Vigilância Sanitária, de São Paulo. “Mas nós não temos autonomia para fiscalizar posto. No caso do posto, quem deveria fiscalizar é a polícia”.
Com a certeza da impunidade, os traficantes continuam ganhando muito dinheiro. Quem perde? Perde o Brasil com o aumento no custo do transporte, pois o risco de acidente aumenta. Perdem as transportadoras que têm seus caminhões envolvidos em acidentes. Perdem as seguradoras que têm que indenizar os proprietários dos caminhões acidentados. Mas quem mais perde é você, caminhoneiro, que não consegue parar, ou é obrigado a tomar. Porém, enquanto o Brasil e as transportadoras perdem dinheiro, você perde sua saúde aos poucos, e a própria vida de uma vez.
Fonte: Revista do Caminhoneiro
http://www.revistacaminhoneiro.com.br/revista208_rebite.htm
Texto: Francisco Reis
Fotos: Roberto Silva
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