Como a escassez de mão de pressiona logística e nível de serviço
Mundo Logística
Publicado em 18 de setembro de 2026
De acordo com Imediato Nexway, falta de motoristas deixa caminhões parados, pressiona o frete e interfere no nível de serviço contratado pelos embarcadores.

A escassez de mão de obra na logística deixou de ser uma questão concentrada na contratação de profissionais e passou a afetar diretamente a capacidade de transporte, os custos do frete e o nível de serviço oferecido aos clientes.
A mudança aparece nos pátios e nos departamentos financeiros: entre as transportadoras que mantêm frota ociosa por falta de motoristas, a média chega a oito caminhões parados, conforme pesquisa da NTC & Logística, que relata ser essa dificuldade em contratar motoristas e agregados enfrentada por 88% das empresas pesquisadas. Além disso, o custo da mão de obra cresceu mais que o diesel e o preço dos veículos.
A dimensão operacional do problema foi discutida no painel “Escassez de mão de obra: como reverter a curva da disponibilidade versus demanda” no “Logística do Futuro”. Moderado por Flávio Amaral, diretor Corporativo do operador logístico Imediato Nexway, o debate reuniu o diretor de Operações da empresa, Glauber Arcângelo, e a sócia da SCC Sociedade de Advogados, Ana Júlia de Almeida Gomes.
“Essa questão deixou de ser um problema de contratação, deixou de ser um problema de RH, de recrutamento e seleção para se transformar em risco de SLA”, afirmou Flávio Amaral. “A falta do motorista é custo de frete, porque a gente começa a ter o impacto da mão de obra muito maior do que os demais custos da nossa operação”, completou.
Segundo os dados apresentados no painel, o custo da mão de obra subiu 13,42% em 24 meses, diante de aumentos de 2,69% no combustível e de 2,61% nos veículos. As informações são de pesquisa divulgada em janeiro deste ano pela NTC&Logística, que fez o levantamento nos 24 meses anteriores a essa data.
ESCASSEZ MUDA CONFORME A OPERAÇÃO
A redução da oferta de motoristas, de acordo com dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), indicam que o Brasil perdeu cerca de 1,2 milhão de habilitados nas categorias C e E entre 2015 e 2025. A idade média dos profissionais é de 45,3 anos e somente 9,5% têm menos de 30 anos, enquanto 12,9% já chegaram aos 60 anos. Motivos para isso, basicamente, são a falta de interesse em seguir a profissão abraçada tradicionalmente pelas famílias de caminhoneiros, que têm vida longe de casa e rotina de trabalho pesada e intensa e de muitos riscos pessoais.
Para o diretor de Operações da Imediato Nexway, Glauber Arcângelo, a primeira resposta à escassez é conservar os profissionais que estão na empresa. “Prioritariamente, é retenção. Quando a gente olha todos os cenários, a melhor alternativa é reter o talento preparado e criar uma carreira”, disse. Como exemplo, citou gerentes que começaram como ajudantes. Segundo o executivo, as oportunidades de crescimento precisam ser concretas e reconhecidas por quem trabalha na operação. “Quando alguém vê que é possível chegar, tudo aquilo que você construiu de fato passa a valer a pena”.
AUTOMAÇÃO ATENUA, MAS NÃO ELIMINA A CARÊNCIA
Arcângelo também afastou a ideia de que a tecnologia, isoladamente, resolverá a escassez. “Automação não é solução, é opção”, afirmou. Segundo ele, a tecnologia pode reduzir a necessidade de trabalhadores em determinadas atividades, mas não se aplica da mesma forma a todas as operações e produtos. Além disso, o investimento ainda é elevado no Brasil. “No fim do dia, ela é uma opção para atenuar a dor. Ela não é uma solução.”
Responsável por uma frota superior a 4,5 mil veículos em circulação diária, Arcângelo afirmou que o embarcador também precisa participar da busca por soluções. Como exemplo, citou os processos de concorrência para a contratação de operadores logísticos: se o salário previsto no contrato estiver abaixo dos valores praticados na região, a empresa vencedora poderá não encontrar trabalhadores. “É muito importante para o embarcador propor um piso salarial que seja competitivo dentro da região”, disse. Caso contrário, acrescentou, “é uma dor para os dois”: o operador não consegue contratar, e o embarcador fica sem as pessoas necessárias à operação.
FLEXIBILIDADE PRECISA DE PROTEÇÃO JURÍDICA
A sócia da SCC Sociedade de Advogados, Ana Júlia de Almeida Gomes, acrescentou a dimensão jurídica à discussão sobre a escassez. Segundo ela, as plataformas digitais ampliaram a concorrência por trabalhadores ao facilitar o ingresso nas atividades de transporte e entrega. “Você disputa uma estrutura com um celular”, destacou. Enquanto as empresas de logística seguem regras trabalhistas e operacionais estabelecidas, as relações criadas pelos aplicativos ainda aguardam definições mais claras.
O transporte de cargas já dispõe de formas reconhecidas de contratação, como o vínculo regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e a atuação do transportador autônomo. A Justiça, porém, ainda tende a analisar as relações profissionais a partir desses dois modelos: de um lado, o empregado com os direitos assegurados pela CLT; de outro, o autônomo, que não tem as mesmas garantias. As plataformas tornaram essa divisão mais complexa ao reunir comércio, serviços e entregas em uma única estrutura. “Você tem muitas relações dentro de uma, e acho que a Justiça ainda não chegou ali”, frisou.
Para Ana Júlia, a regulamentação das plataformas terá de ocorrer e poderá tornar mais equilibrada a disputa por mão de obra, embora ela tenha ressalvado que essa consequência ainda é uma hipótese. Enquanto as novas regras não chegam, a advogada defendeu formas de contratação que conciliem flexibilidade e segurança jurídica. Isso exige documentos, contratos, procedimentos e controles, pois arranjos informais podem resultar em ações trabalhistas de alto valor e risco. “O barato sai caro, geralmente”, enfatizou.
APLICATIVOS SÃO CAMINHOS DE FUGA DE MÃO DE OBRA
Dados apresentados durante o debate mostraram que aplicativos como Uber, 99 e iFood concentram cerca de 4,5 milhões de profissionais de entrega, contingente praticamente igual ao de motoristas do transporte rodoviário de carga. Ou seja, essa é uma alternativa que os profissionais do TRC têm como opção.
Cajamar, na Região Metropolitana da Capital, e Extrema, no Sul de Minas Gerais, são exemplos de cidades típicas dessa competição. Cajamar reúne 142 empresas instaladas e responsáveis por uma relação impressionante: de cada 10 entregas de e-commerce no País, quatro saem dali, com as companhias competindo pelo mesmo contingente de colaboradores. Outro caso revelador é o de Extrema, em que o número de vagas abertas é superior à população da cidade.
“O problema é real. Ele existe, já está aqui na nossa frente”, resumiu o executivo Flávio Amaral da Imediato Nexway.




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