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O piso mínimo do frete tem lado positivo?

  • há 7 horas
  • 5 min de leitura

Mundo Logística - Ana Beatriz Rodrigues

Publicado em 07 agosto de 2026


Para a MundoLogística, o diretor de Negócios e Operações da Cootravale, Edson Arthur da Costa, revelou como a cooperativa encontrou oportunidades em meio à crise.


Fonte: Mundo Logística
Fonte: Mundo Logística

Apolítica do piso mínimo do frete é cercada de polêmicas desde a criação em 2018. Em 2026, o assunto voltou a ser discutido com a edição da Medida Provisória nº 1.343, que reforçou as regras de cumprimento da legislação. O texto foi sancionado pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na última quarta-feira (5).


Nesse cenário, há quem prefira ver o “copo mais cheio”. É o caso do diretor de Negócios e Operações da Cootravale, Edson Arthur da Costa, que enxergou oportunidades na regulamentação.


Segundo o executivo, a organização interna da cooperativa foi o que permitiu enxergar as oportunidades com mais clareza. “Com essa organização, as oportunidades ficaram mais claras. A gente conseguiu abraçar elas e atendê-las de forma mais rápida”, afirmou em entrevista para a MundoLogística.


De acordo com Costa, a Cootravale já cumpria as exigências relacionadas à emissão do CIOT e à parte sistêmica das operações, mas enfrentava conflitos em corredores com contrafluxo, além da resistência de parte do mercado, que seguia praticando valores de frete abaixo do piso estipulado.


A “virada de chave” veio com a edição da MP em março de 2026. “O movimento foi mais forte quando envolveram os embarcadores como corresponsáveis pela aplicação da lei”, argumentou.


Para ele, o aprendizado que a cooperativa levou disso é que valeu a pena se antecipar. “O que todo mundo acabou sofrendo para ter que correr para arrumar, nós já estávamos de certa forma bem ajustados. O aprendizado é que vale a pena fazer certo desde a primeira vez.”


OPORTUNIDADES COM O PISO MÍNIMO DO FRETE


Nesse contexto, Costa revelou a importância de encarar a mudança de uma forma mais positiva. “A gente tem que olhar o copo mais cheio. Ficar olhando o copo só meio vazio não funciona”, afirmou.


Em relação às mudanças no piso mínimo do frete, um ponto importante foi tentar encontrar soluções para o embarcador, tentando pensar não no aumento de custo que ele teria com a mudança do piso. Em vez disso, a estratégia da Cootravale se apoiou no custo global da rota, considerando a montagem de corredores, circuitos dinâmicos e estáticos, além de diferentes modelos de frota - seja fixa ou variável.


“Fomos mostrando para o mercado e para os clientes que já tinha alternativa. Isso não é para tentar escapar da fiscalização do piso mínimo, mas porque o próprio conceito do piso, como foi estruturado e criado, já trazia ferramentas que indicavam a existência de caminhos alternativos”, disse.


O que a Cootravale fez foi tentar mostrar para os clientes realmente que caminhos são esses. “A gente trabalhou muito na questão de um processo colaborativo junto com o embarcador, ouvindo onde estão as maiores dores dele e onde poderíamos oportunizar com a nossa organização”, destacou Costa.


APLICAÇÃO DO BACKHAUL


Segundo o executivo, o piso mínimo encarou outro problema que já existia no mercado: operações de curta e média distância, muito frequentes, não rentabilizavam nem o mínimo necessário. De acordo com uma publicação da Forbes, com base em dados da Uber Freight, cerca de 35% dos caminhões no mundo circulam vazios entre uma carga e outra.


No Brasil, a situação tende a ser mais grave por causa da dependência do transporte rodoviário e pela concentração das rotas de transporte - como nos casos do agronegócio, em que caminhões transportam soja ou milho do Centro-Oeste até o litoral e retornam ao interior sem carga. Essa situação, segundo a Forbes, pode encarecer o custo logístico em até 50%.


Além disso, o CEO da LogShare, Pedro Padro, estima que 38% dos caminhões rodam vazios no país, um desperdício que pode custar entre R$ 100 bilhões e R$ 200 bilhões por ano ao setor.


É nesse cenário que a Cootravale mostrou para os clientes a possibilidade das operações de backhaul. “Quando você tem uma operação onde não rentabiliza as duas pernas, em que o veículo teria que voltar vazio, a gente [Cootravale] foi mostrando que existiam caminhos”, explicou Costa.


Na visão de executivo, o objetivo é otimizar ao máximo o ativo - usar o caminhão em toda a cadeia, reduzindo ao máximo a rodagem vazia. “A gente sabe que tem muito disso no mercado, principalmente em rotações curtas e médias, que eram muito frequentes”, afirmou.


Para o executivo, o desafio era claro: como otimizar melhor o veículo, rentabilizando o mínimo necessário diante do piso mínimo, sem impactar os custos do embarcador. “De certa forma, no meu caso, eu consegui ganhar mais negócio e crescer mais ainda com o cliente.”


NEM TUDO SÃO FLORES


Apesar dos resultados obtidos pela Cootravale, Costa apontou que ainda há entraves na aplicação do piso mínimo de frete. Segundo ele, a maior dificuldade está na interpretação da lei, o que inclui o enquadramento correto de cada tipo de operação e as adequações sistêmicas por parte das empresas.


Além disso, o executivo avaliou um problema de postura por parte de alguns embarcadores, que seguem tratando o piso mínimo como um teto de pagamento. “Vejo vários embarcadores aqui querendo pagar exatamente o piso mínimo, alegando que ‘a lei é essa, eu só posso te pagar isso aqui’.” Na opinião do executivo, o piso deveria ser tratado como referência de sustentabilidade do setor.


Os números já começam a revelar as dificuldades do setor em relação à regulamentação. Até junho de 2026, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) havia aplicado R$ 932,4 milhões em multas por descumprimento do piso mínimo do frete, distribuídas em mais de 270 mil autos de infração. Esse valor já supera o total das autuações registradas desde a criação da política, em 2018, quando as multas somaram apenas R$ 69,3 mil.


De acordo com a Agência, o aumento das autuações está relacionado à ampliação da fiscalização eletrônica. A agência ressaltou, porém, que os valores correspondem às autuações lavradas e que todos os autos passam por processo administrativo, com garantia do contraditório e da ampla defesa, podendo resultar na manutenção, alteração ou cancelamento das penalidades.


Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) também revelou que o tabelamento do frete eleva em média 16,4% os custos de transporte das empresas. Além disso, oito em cada dez empresas consideram que as regras de cálculo adotadas pela ANTT estão parcial ou totalmente desalinhadas da realidade operacional do transporte rodoviário de cargas.


COMO SE PREPARAR PARA SITUAÇÕES PARECIDAS?


Nesse cenário, como as empresas podem enxergar oportunidades em vez de problemas?


Na visão de Costa, mudanças regulatórias, como qualquer outra transformação no setor, geram insegurança, mas “quanto mais preparada a empresa está, mais ela consegue transformar isso em vantagem competitiva”.


Na opinião do executivo, investir em tecnologia, sistemas e qualificação de equipe reduz o impacto de mudanças regulatórias na organização. Ele também apontou o modelo cooperativista, adotado pela Cootravale, como um diferencial.


“Compartilhar conhecimento, estrutura e poder de escala também traz vantagem para o nosso negócio”, diz. Para ele, a união entre cooperados dá à cooperativa mais flexibilidade para ampliar o atendimento e responder às demandas do mercado.


Ao ser questionado sobre uma recomendação para outras transportadoras, o executivo defendeu uma mudança na visão das empresas: em vez de encarar a regulamentação como obrigação, tratá-la como orientação. “Se o governo está direcionando isso, ele está, de certa forma, ajudando”, avaliou, lembrando que o movimento nasceu da tentativa de regulamentar o setor.


Para ele, esse tipo de pressão no mercado não deve parar nas discussões sobre o piso mínimo do frete - o setor já sente os efeitos de outras mudanças, como a exigência de seguros obrigatórios. “Quanto mais rápido a gente se mobiliza para fazer os ajustes, mais rápido a gente consegue enfrentar tudo que está vindo pela frente e ter mais benefícios”, destacou.


 
 
 

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