O que faz do Brasil uma aposta bilionária para Mercado Livre, Amazon e Shopee
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Mundo Logística
Publicado em 02 de junho de 2026
Para especialista do setor, combinação entre consumo, território e potencial de crescimento mantém o país entre os mercados mais relevantes do mundo.

Estradas precárias, longas distâncias, custos operacionais elevados, escassez de mão de obra, infraestrutura desigual, desafios regulatórios… há décadas, esses são alguns dos principais obstáculos apontados por empresas e especialistas que atuam na logística brasileira. Ainda assim, o fluxo de investimentos segue em expansão.
Somente em 2026, o Mercado Livre anunciou R$ 57 bilhões para ampliar a operação no país. A Amazon reforçou que o Brasil é uma das prioridades globais de investimento e destacou mais de R$ 55 bilhões aplicados na última década. A Shopee acelerou a expansão da rede logística, enquanto a Shein, mesmo enfrentando dificuldades na estratégia de produção local, mantém planos para aprofundar a presença no mercado brasileiro.
À primeira vista, o cenário parece contraditório. Afinal, por que tantas empresas continuam direcionando recursos para um mercado frequentemente citado como complexo e desafiador para operar? A resposta passa por uma característica que aparece de forma recorrente nas estratégias dessas companhias: o tamanho da oportunidade.
MERCADO DE ESCALA CONTINENTAL
Quando questionado sobre o que torna o Brasil estratégico mesmo diante dos desafios estruturais, o especialista do setor, Celso Queiroz afirmou que a resposta passa pela própria definição de logística.
“Se você pensar que logística é vencer espaço e atender um mercado, a pergunta é: quantos países no mundo têm um PIB maior que 12 trilhões? Desses, quais têm mais de 200 milhões de habitantes? E, por fim, quais têm mais de 8 milhões de quilômetros quadrados?”, questionou.
Segundo ele, poucos países reúnem simultaneamente essas características. “Das quase 200 nações, três respondem a isso: Estados Unidos, China e Brasil. Então, o Brasil está entre os principais mercados de logística do mundo. É simples assim”, confirmou.
Na avaliação do executivo, é justamente essa combinação que ajuda a explicar por que grandes empresas continuam ampliando investimentos e operações no país.
“Por isso que todo mundo quer vir para cá. E não investe pouco. Tem 200 milhões de consumidores, tem um PIB de mais de 12 trilhões, 63% desse PIB é consumo. E isso está espalhado em 8 milhões e meio de quilômetros quadrados”, ressaltou.
Para Celso, o tamanho da atividade logística no país reforça esse potencial. “O PIB da logística no Brasil é algo em torno de 1,9 trilhão. Você sabe quanto é o PIB do agro? É a metade do PIB logístico. O agro, para dentro da porteira, é metade do PIB logístico. Então tem que vir para cá. Não tem como não vir.”
Na visão do executivo, a relevância do Brasil vai além do mercado interno. Embora reconheça a importância da América Latina, ele avaliou que a escala da economia brasileira faz com que o país tenha peso próprio dentro da região.
“O Brasil é tão grande em relação à América Latina que é bastante por si só. Ele não precisa da América Latina para nada”, disse.
Ainda assim, Celso acredita que a posição geográfica brasileira tende a fortalecer a importância nos fluxos logísticos da região, especialmente diante da expansão da presença chinesa na América do Sul.
“Com certeza, na expansão chinesa, um dos hubs vai ser o Brasil por causa da posição geográfica dele. Se a entrada vai ser pelo Peru por causa do oceano, que está do lado chinês do oceano, a ferrovia vai puxar para o Brasil. O Brasil é o baricentro de carga, principalmente na América do Sul”, assegurou.
Para ilustrar a diferença de escala em relação aos demais países latino-americanos, ele faz uma comparação com a Argentina. “A Argentina, que é um país extremamente importante na América Latina, é do tamanho do Nordeste [do Brasil].”
BILHÕES DE REAIS PARA AMPLIAR CAPACIDADE E ALCANCE
Entre os exemplos mais recentes está o Mercado Livre. A companhia anunciou investimento recorde de R$ 57 bilhões no Brasil em 2026, valor 50% superior ao registrado no ano anterior. Os recursos serão destinados à expansão da malha logística, ao fortalecimento da operação de marketplace e ao avanço dos serviços financeiros.
Em nota enviada à MundoLogística, a empresa afirmou que “o Brasil é um dos mercados mais estratégicos e promissores para o crescimento do e-commerce e dos serviços financeiros na América Latina”.
A relevância da operação brasileira aparece também nos números da companhia. Atualmente, o país responde por 52,6% da receita líquida total do Mercado Livre, que alcançou R$ 84,5 bilhões em 2025.
“A companhia enxerga um elevado potencial de crescimento no país, acompanhando as oportunidades de evolução do comércio eletrônico no varejo nacional. Projeções de mercado estimam que o e-commerce represente atualmente cerca de 17% do setor no Brasil, patamar que indica um espaço expressivo para expansão quando comparado a mercados mais maduros, como Estados Unidos (27%) e China (32%)”, afirmou em nota.
A expansão prevista para este ano inclui a abertura de 14 novos centros de distribuição fulfillment, elevando o total para 42 unidades no Brasil. Segundo a empresa, o movimento representa aumento de 50% na capacidade instalada de armazenamento e entrega.
O plano também prevê a criação de 10 mil novos postos de trabalho, com foco principalmente nas áreas de logística, tecnologia e serviços financeiros, elevando o quadro total de colaboradores no país para mais de 70 mil pessoas até o fim do ano.
“O Mercado Livre entende que os avanços em infraestrutura, tecnologia e capilaridade logística são fundamentais para ampliar o acesso ao comércio eletrônico no Brasil e impulsionar o desenvolvimento do ecossistema digital no país. Atualmente, 5,8 milhões de pequenas e médias empresas e empreendedores brasileiros utilizam as soluções da companhia para vender, crescer e acessar serviços financeiros”, ressaltou a empresa.
A Amazon segue uma estratégia semelhante. Segundo a companhia, o Brasil representa a maior operação em infraestrutura e geração de empregos na América Latina.
“O Brasil é uma das principais prioridades globais de investimento da Amazon e a maior operação da empresa na América Latina em infraestrutura e geração de empregos”, informou a empresa para a MundoLogística. A companhia afirmou ter investido mais de R$ 55 bilhões no país ao longo da última década em infraestrutura, tecnologia e capacitação de parceiros.
Os aportes ajudaram a impulsionar uma expansão acelerada da rede logística. Segundo a empresa, nos últimos seis anos a operação brasileira cresceu a uma média de quase um novo centro por semana. Em 2026, esse ritmo chegou a três novos centros inaugurados por semana. De acordo com a companhia, a estrutura permite entregas em poucas horas nas principais cidades e, em áreas selecionadas, em até 15 minutos.
Hoje, a Amazon opera mais de 300 centros logísticos distribuídos pelos 26 estados e pelo Distrito Federal, apoiados por 19 centros de distribuição localizados em sete estados. Desses CDs, sete foram inaugurados no último ano.
A descentralização é outro elemento destacado pela companhia. Mais de 140 centros logísticos estão localizados fora da região Sudeste, incluindo mais de 100 nas regiões Norte e Nordeste.
“Realizamos entregas porta a porta em destinos diversos — das regiões ribeirinhas da Amazônia às favelas de São Paulo e do Rio de Janeiro — ampliando o acesso ao e-commerce para todos os brasileiros”, afirmou a empresa.
CORRIDA PELA CAPILARIDADE
A expansão logística também está no centro da estratégia da Shopee. Em menos de um ano, a empresa passou de 13 para 22 centros de distribuição no Brasil. Atualmente, a operação possui 17 unidades no modelo cross-docking e cinco fulfillment.
Além disso, a companhia opera mais de 200 hubs de primeira e última milha, mais de 3 mil Agências Shopee espalhadas pelo país e uma rede formada por mais de 45 mil motoristas parceiros.
Os investimentos permitiram que a empresa ultrapassasse a marca de 1 milhão de metros quadrados dedicados exclusivamente às operações logísticas no Brasil.
Segundo a companhia, os investimentos contribuíram para reduzir o prazo médio de entrega em 1,5 dia no quarto trimestre de 2025 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
QUANDO A COMPLEXIDADE APARECE NA PRÁTICA
Se Mercado Livre, Amazon e Shopee ilustram os investimentos voltados à expansão logística, a experiência da Shein ajuda a evidenciar os desafios encontrados por empresas que buscam ampliar sua atuação no Brasil.
Em 2023, a varejista enfatizou o interesse de transformar o país em um polo de produção para a América Latina. A proposta previa investimentos de US$ 150 milhões em parcerias para produzir roupas em 2 mil fábricas locais e criar 100 mil empregos na indústria da moda até 2026.
Ainda naquele ano, a empresa anunciou parcerias com 336 fábricas brasileiras. O avanço do projeto, porém, encontrou obstáculos.
De acordo com informações publicadas pelo Valor Econômico, a companhia enfrentou dificuldades relacionadas ao transporte, à logística, à localização de algumas fábricas parceiras e às regulamentações trabalhistas.
Em comunicado da Shein publicado pela Valor Econômico em fevereiro de 2026, a própria empresa reconheceu os desafios. “A produção no Brasil exigiu tempo para amadurecer, e, logo, as diferenças nos negócios e na infraestrutura industrial tornaram-se aparentes.”
A companhia acrescentou que “desta forma, o progresso tem sido mais lento e desafiador” e informou que está adotando uma abordagem mais “seletiva” para aprofundar parcerias com “as fábricas mais capazes”.
DESAFIOS DE OPERAR NO BRASIL
Ao falar sobre os desafios de operar no Brasil, Celso ressaltou que não existe uma única dificuldade, mas um conjunto de fatores que impactam a atividade logística. “Temos dificuldade, por exemplo, básica de mão de obra. Temos dificuldade de estrada”, lembrou.
Na avaliação do executivo, as transformações do mercado de trabalho brasileiro têm ampliado o peso da logística como empregadora. Segundo o executivo, a base da economia vem migrando da indústria para o setor de serviços e, dentro desse movimento, a logística tem assumido um papel cada vez mais relevante.
“A base da pirâmide brasileira está sendo deslocada da indústria para o serviço. E, dentro da área de serviços, a base da pirâmide está sendo deslocada para a logística. Em serviços, os grandes empregadores de mão de obra são a construção civil e a logística”, citou.
Para o Celso, outro desafio está relacionado à formação de profissionais para o setor. Ele avaliou que a logística ainda é uma área relativamente recente como campo estruturado de conhecimento, o que ajuda a explicar a escassez de cursos de graduação específicos.
“Também não temos mão de obra qualificada, não temos faculdade que forma logístico. Vai para engenharia, vai para administração, mas um dia vai ter uma faculdade de logística”, afirmou. “Porque é uma tecnologia muito nova”, complementou.
LOGÍSTICA COMO DIFERENCIAL COMPETITIVO
Se os desafios permanecem, as empresas têm respondido com investimentos em infraestrutura, tecnologia e eficiência operacional. Na Amazon, a Inteligência Artificial já faz parte da estratégia de expansão da rede.
Segundo a companhia, a tecnologia é utilizada para otimização de rotas, previsão de demanda e implantação de novas unidades. A empresa afirmou que a aplicação de IA reduziu em 77% o tempo de implementação de cada novo centro logístico.
O Mercado Livre aposta na ampliação de sua estrutura fulfillment para aumentar capacidade de armazenamento e acelerar entregas.
A Shopee, por sua vez, vem ampliando a rede logística para sustentar o crescimento da operação e melhorar os níveis de serviço.
Apesar dos desafios, Celso avaliou que lidar com a complexidade faz parte da própria natureza da atividade logística. “A logística passou a ser uma gestão de detalhe”, ressaltou.
Para o executivo, a convivência diária com essas variáveis faz parte do trabalho dos profissionais do setor. “A forma como as empresas de logística e os logísticos lidam com as dificuldades é inerente à função. A gente se acostumou”, acrescentou.
Na avaliação dele, a logística ainda está em processo de evolução e amadurecimento. “A gente sabe que está construindo uma tecnologia que não está pronta. É mais ou menos como viver na época de Hipócrates na medicina. Estamos fazendo uma coisa muito antiga de uma forma muito contemporânea”, explicou Celso.




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