Redução da jornada pode elevar custos e afetar empregos, aponta estudo
- há 2 horas
- 3 min de leitura
Portal Be News
Publicado em 20 de abril de 2026

Relatório alerta para impactos no setor de transportes, com aumento de despesas, pressão sobre preços e risco de perda de até 84 mil vagas
Um estudo divulgado no último dia 14 acende um alerta sobre os possíveis efeitos das propostas em discussão no Congresso Nacional que preveem a redução da jornada de trabalho no Brasil. Segundo o relatório, medidas como a diminuição da carga horária semanal e a imposição de novas escalas podem gerar impactos negativos relevantes, especialmente no setor de transportes, considerado estratégico para a economia.
O documento analisa Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que sugerem reduzir a jornada atual de 44 horas semanais para 40 ou até 36 horas, em alguns casos acompanhadas da adoção de escalas rígidas, como o modelo 4×3 (quatro dias de trabalho e três de descanso).
De acordo com os autores, embora a redução da jornada seja um tema legítimo do ponto de vista social, a forma como vem sendo proposta no Brasil difere da experiência internacional. Em outros países, mudanças desse tipo costumam ocorrer de maneira gradual, negociada e vinculada a ganhos de produtividade — e não por imposição legal direta.
O estudo argumenta que a adoção de regras rígidas pode provocar um “efeito-bumerangue” no mercado de trabalho, com aumento de custos, perda de competitividade e expansão da informalidade.
No setor de transportes, os impactos tendem a ser ainda mais intensos. Por sua natureza operacional, o segmento depende de escalas flexíveis e funcionamento contínuo, muitas vezes 24 horas por dia. Alterações generalizadas na jornada exigiriam uma reestruturação ampla das operações, com reflexos diretos sobre custos e eficiência.
Simulações apresentadas no relatório indicam que a redução da jornada pode gerar aumento inicial de custos trabalhistas entre R$ 11,9 bilhões e R$ 28,1 bilhões por ano no setor. Como consequência, empresas tenderiam a repassar esses custos aos preços, pressionando tarifas e fretes em toda a cadeia logística.
Além disso, o estudo projeta efeitos macroeconômicos negativos. No cenário de redução para 36 horas semanais, o Produto Interno Bruto (PIB) do setor de transportes poderia recuar até 2,6%, com perdas de até R$ 9,6 bilhões anuais. O impacto também atingiria o emprego, com estimativa de corte de até 84 mil postos de trabalho no segmento.
Para os autores, a rigidez das propostas contrasta com a diversidade de modelos já existentes no mercado. Atualmente, o setor opera com uma ampla variedade de escalas — como 6×1, 5×2 e 12×36 — definidas por negociação coletiva e adaptadas às necessidades específicas de cada atividade.
Diante desse cenário, o estudo conclui que mudanças estruturais na jornada de trabalho devem ser conduzidas com cautela, priorizando o diálogo entre trabalhadores e empregadores e evitando soluções uniformes que possam desorganizar arranjos já consolidados.
Geração de empregos
O relatório reúne estudos internacionais que colocam em dúvida a eficácia da redução da jornada como instrumento de geração de empregos.
Segundo a análise, países que adotaram reduções por meio de legislação — como França e Chile — não registraram aumento consistente na ocupação. Em alguns casos, houve crescimento do desemprego ou da informalidade, exigindo ajustes posteriores nas regras.
Os dados mostram que os efeitos sobre o emprego tendem a ser nulos ou negativos, especialmente quando a redução não é acompanhada por ganhos de produtividade.
Por operar com alta intensidade de mão de obra e margens mais comprimidas, o setor de transportes é apontado como um dos mais sensíveis a mudanças na jornada de trabalho.
O estudo destaca que cerca de 47% do valor gerado pelo setor é destinado ao pagamento de pessoal, o que limita a capacidade de absorver aumentos de custos.
Diante desse cenário, empresas teriam poucas alternativas: elevar preços, reduzir margens, automatizar processos ou diminuir o quadro de funcionários — além do risco de aumento da informalidade.
Negociação coletiva
Uma das principais recomendações do estudo é a preservação da negociação coletiva como instrumento central para definir jornadas e escalas de trabalho.
No modelo atual brasileiro, a Constituição estabelece limites máximos, mas permite ajustes por meio de acordos entre empresas e trabalhadores, o que garante maior adaptação às diferentes realidades produtivas.
Para os autores, esse modelo flexível é mais eficiente para equilibrar produtividade, competitividade e bem-estar, evitando distorções que podem surgir de regras uniformes aplicadas a setores com características tão distintas.




Comentários