Secas na Amazônia deixam de ser exceção e desafiam infraestrutura logística do país
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Mundo Logística
Publicado em 04 de agosto de 2026
Debate promovido pela FGV reuniu especialistas, governo e setor produtivo e apontou que adaptação da infraestrutura logística se tornou prioridade para reduzir os impactos das mudanças climáticas.

As secas extremas na Amazônia deixaram de ser eventos ocasionais para se tornarem uma realidade cada vez mais frequente. O alerta foi feito por especialistas durante o webinar "Diálogos Amazônicos - Seca nos rios Amazônicos: Clima e Economia", promovido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), que reuniu representantes da academia, do Governo Federal e do setor produtivo para discutir os impactos das mudanças climáticas sobre a logística, a economia e o desenvolvimento da região.
Segundo os participantes, a intensificação dos eventos climáticos extremos exige uma mudança na forma como o Brasil planeja sua infraestrutura logística, especialmente na Amazônia, onde milhões de pessoas e centenas de indústrias dependem diretamente da navegação fluvial.
Dados apresentados durante o encontro mostram que, somente nos últimos 25 anos, a região registrou cinco grandes secas e quatro grandes cheias, fenômenos que passaram a ocorrer com maior frequência e intensidade. Em 2024, o Rio Negro atingiu o menor nível já registrado em mais de um século de medições, evidenciando a crescente vulnerabilidade da maior bacia hidrográfica do planeta.
Para o presidente-executivo do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), Lúcio Flávio Morais de Oliveira, a discussão reforça que os impactos das mudanças climáticas extrapolam a questão ambiental e já representam um desafio estratégico para a economia brasileira.
"Quando a logística da Amazônia é comprometida, os impactos ultrapassam as fronteiras da região. O Polo Industrial de Manaus integra cadeias produtivas nacionais e depende dos rios para receber insumos e distribuir produtos para todo o País. Adaptar a infraestrutura logística à nova realidade climática deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade estratégica para garantir competitividade, abastecimento e desenvolvimento econômico", destacou.
Durante o webinar, o professor Francis Wagner, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), explicou que a alternância entre secas e cheias extremas passou a ocorrer em intervalos muito menores do que no passado, indicando uma nova dinâmica climática para a região amazônica. O pesquisador destacou que a seca histórica registrada em 2024 e a previsão de fortalecimento do fenômeno El Niño reforçam a importância do monitoramento permanente dos rios e do desenvolvimento de modelos capazes de antecipar cenários críticos.
Outro ponto destacado foi o avanço da inteligência climática aplicada à logística. Modelos desenvolvidos pela UEA já permitem projetar, com meses de antecedência, o comportamento dos principais rios amazônicos, estimando níveis de navegabilidade, profundidade dos canais e restrições ao tráfego de embarcações. As informações vêm sendo utilizadas por empresas e órgãos públicos para apoiar decisões operacionais e reduzir riscos durante os períodos de estiagem.
O secretário nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos, Otton Luís Bulhões da Silveira Filho, ressaltou que o Brasil precisa superar o histórico de baixa utilização de seu potencial hidroviário e ampliar o planejamento preventivo diante da maior frequência dos eventos climáticos extremos. Segundo ele, o fortalecimento das hidrovias e a integração entre governo, universidades e iniciativa privada são fundamentais para aumentar a resiliência logística do país.
Na avaliação do CIEAM, o debate evidencia que investir em infraestrutura, monitoramento climático e planejamento logístico tornou-se uma agenda prioritária para preservar a competitividade da indústria instalada na Amazônia e garantir o funcionamento de cadeias produtivas estratégicas para a economia nacional.
